Uma área que até 2018 era ocupada predominantemente por pastagens hoje já tem árvores de até 15 metros de altura e voltou a receber animais como onça-pintada, anta, gato-mourisco e veado-campeiro.

A transformação ocorreu após o plantio de cerca de 200 mil mudas de espécies nativas em 149 hectares da Estação Ecológica Mico-Leão-Preto, em Marabá Paulista (SP). O reflorestamento começou em 2018 como parte de medidas de compensação ambiental pelas obras de duplicação da Rodovia Raposo Tavares (SP-270). A área recuperada equivale a aproximadamente 209 campos de futebol, área equivalente à do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Murilo Pires dos Santos, coordenador de Meio Ambiente da Cart Concessionária de Rodovias, informou que o plantio foi realizado em etapas, durante os meses chuvosos, e utilizou mais de 80 espécies nativas, entre elas açoita-cavalo, amendoim-do-campo, angico-branco, angico-preto, araçá, pau-formiga, pau-viola e sangra-d'água.

Além do plantio, a área precisou ser cercada para permitir o desenvolvimento da vegetação. O coordenador explicou, ainda, que uma área como essa leva aproximadamente cinco anos para deixar de ser apenas um plantio e começar a funcionar, de fato, como uma floresta. Atualmente, a vegetação já forma um corredor entre fragmentos de mata nativa, ampliando as condições de deslocamento e abrigo para a fauna silvestre.

Fauna volta a ocupar a área

Os resultados do reflorestamento também aparecem na fauna. Murilo informou que o monitoramento realizado entre 2024 e 2025 registrou oito espécies de animais na região. Os registros foram feitos por meio de câmeras trap (armadilhas fotográficas) instaladas nas árvores, que permitem acompanhar a presença dos animais sem interferir na rotina da fauna. Entre os animais registrados estão espécies de importância para a conservação, como onça-pintada, anta, gato-mourisco e veado-campeiro. Segundo a Cart, no Brasil, a anta, o gato-mourisco e o veado-campeiro são classificados como vulneráveis (VU) à extinção, ou seja, já enfrentam risco elevado de desaparecer da natureza. Para Murilo, os registros mostram que a área recuperada passou a cumprir novamente funções importantes para o ecossistema. A presença dos animais também reforça a importância do reflorestamento para a formação de um corredor ecológico, conectando fragmentos de mata nativa e favorecendo o deslocamento da fauna.

Aproximação do mico-leão-preto

A recuperação da área tem importância especial para o mico-leão-preto, um dos primatas mais ameaçados de extinção do mundo e cuja ocorrência está restrita a áreas do interior de São Paulo. O animal, no entanto, ainda não foi observado dentro da área reflorestada. Murilo informou que há evidências de que os micos-leões-pretos começaram a se aproximar do local em 2025. A aproximação é considerada um sinal positivo para a conservação da espécie, já que a área recuperada pode funcionar como uma ligação entre fragmentos de vegetação nativa, ampliando as possibilidades de deslocamento dos animais. Com o avanço da floresta, a expectativa é que o espaço passe a oferecer cada vez mais condições de abrigo, alimentação e circulação para diferentes espécies. Área continua em recuperação Embora o projeto de reflorestamento tenha atingido seu objetivo inicial, parte da área ainda passa por cuidados.

Atualmente, 64 hectares permanecem em fase de manutenção, com ações voltadas à conservação e ao desenvolvimento da vegetação. Murilo avaliou que o projeto já atingiu seu objetivo inicial e destacou que a recuperação ambiental vai além do plantio de árvores. “A conexão formada entre os fragmentos florestais e o retorno de espécies importantes da fauna mostram que o projeto alcançou seu principal objetivo: devolver funções ecológicas a uma área antes degradada e contribuir efetivamente para a conservação da biodiversidade regional”, afirmou. O projeto é acompanhado pelo IPÊ, responsável pelos programas Corredores da Vida e Conservação do Mico-Leão-Preto, e contou ainda com a participação da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (ITESP).